sábado, 25 de junho de 2011

Evolução


Dizem que geneticamente o ser humano é 97% igual ao macaco (chimpanzé? Gorila?). Olhando bem, não parece. Não entendo nada de genética nem de biologia, mas parece evidente que existe algo além dos genes que diferencia humanos de animais. Como não entendo nada deste assunto, não vou me estender neste post. Nunca li “A origem das espécies” nem “A caixa preta de Darwin”. Ainda que haja certa forma de evolução no reino animal, não acredito que os humanos evoluíram dos primatas porque, falando como leigo, a teoria me parece, na ausência de intervenções divinas, incapaz de explicar porque somos tão diferentes de todos os animais. Não preciso nem me delongar nesta parte, afinal, fomos nós que mandamos um macaco pro espaço e não vice-versa (tudo bem, concordo que fui leviano neste comentário). Em segundo lugar, a Bíblia diz que Deus formou o homem à sua imagem e semelhança, do pó da terra. Alguns teólogos que acreditam em evolução acham que Deus usou um macaco como protótipo. Porém, só porque a matéria prima é a mesma e a estrutura física/genética é parecida não implica necessariamente em evolução. Afinal, os seres celestiais se parecem conosco e não me consta que tenha havido evolução no céu (isso foi uma piada sem graça). Mas, seja como for que se creia que Deus criou o corpo do homem, a maior diferença certamente está na parte espiritual. Somente o homem cultua seu Criador. E existe uma explicação Bíblica para isto.

Gênesis 2:19 diz que todos os animais foram formados do pó da terra e todos são chamados de alma vivente (“nephesh”, no hebraico). A respeito do homem, Gn 2:7 também diz que este foi feito alma vivente (“nephesh”). Além disso, o mesmo verso diz que Deus soprou em suas narinas o “fôlego da vida” (“neshamah” = fôlego, espírito). Os animais também têm um fôlego, mas existe alguma diferença entre a alma vivente dos animais e o espírito humano. Creio que é isto que faz com que sejamos a imagem de Deus. Somos uma criação à parte. Depois da formação do homem, Deus parou com seus atos de “criação especial” e deixou a natureza correr seu curso natural, que é a forma como eu entendo que ele “descansou” no sétimo dia da criação. Não significa que Ele não opere milagres ainda hoje, mas que Ele não cria nenhuma outra espécie da forma como criou no princípio. As novas espécies aparecem hoje por processos puramente naturais.

O que dizer dos fósseis de hominídeos? Australopitecus, homo erectus, neanderthal, cro-magno, etc.? Podemos separar 3 diferentes explicações dos Cristãos para tais fósseis:

1 – Posição naturalista e evolução teísta: afirmam que os fósseis provam a teoria da evolução, portanto, o homem evoluiu dos primatas. Alguns acham que não existe espírito, somos apenas corpo evoluído e energia. Outros acham que em algum momento no processo evolutivo, Deus colocou o espírito no homem. É como se Adão acordasse um dia, olhasse pra sua mãe e dissesse: “quem é essa macaca?” Alguns acham que o homem (homo sapiens) teria aparecido há uns 150 ou 200 mil anos atrás, baseado na datação dos fósseis por métodos de decaimento radiativo (ex. Dr. Hugh Ross, do Reasons do Believe). Outros preferem ficar com a cronologia Bíblica pós-Adão e creem que o homem apareceu há aproximadamente 6000 anos. Qualquer outro hominídeo que houve antes disso não era um homem (não tinha um espírito humano), por mais evoluído que fosse (ex. Dr. Gerald Schroeder, PhD MIT).

2 – Outra posição acredita que nenhum dos primatas antigos foi ancestral do homem. Eles eram apenas animais que foram extintos com o tempo. O homem foi criado de maneira especial por Deus e colocado em um paraíso na terra chamado Éden há 6000 anos atrás. As pinturas antigas, atribuídas a homens das cavernas, teriam sido feitas por descendentes de Adão após a queda. Os que defendem esta teoria argumentam que a datação de fósseis e artefatos reconhecidamente humanos com mais de 10000 anos está errada.

3 – A terceira posição argumenta que todos os fósseis (dinossauros, primatas e humanos) têm menos de 10000 anos e a datação científica de todos eles está errada. A terra é nova e, portanto, estes primatas não têm nada a ver com o homem e se extinguiram no dilúvio na época de Noé.

Eu me identifico mais com a segunda posição acima, mas não me considero apto para discutir a parte científica deste assunto.

Pra terminar, uma curiosidade. Você já deve ter visto algum quadro semelhante à figura abaixo:


Esta figura mostra alguns dos estágios da suposta evolução do homem, como se fosse sua árvore genealógica. Se algum dia você tiver a oportunidade de visitar o Museu de História Natural de Londres, vá até a seção de fósseis de hominídeos. Eles estão todos lá. Na vitrine dos crânios você vai ver uma placa com os dizeres: “Relatives? Yes. Ancestors? No”, traduzindo, “Parentes? Sim. Ancestrais? Não”. O que isto significa? Significa que a figura acima está errada até mesmo para biólogos não-cristãos e os livros de escola precisam ser atualizados. Os biólogos não acham mais que o homem evoluiu a partir do australopitecus, homo erectus, neanderthal ou qualquer outro destes. Eles acham que o homo sapiens e estes outros hominídeos devem possuir um ancestral comum em algum lugar no passado, mas este ancestral ainda não foi encontrado. É o chamado “elo perdido” (se tiver algum biólogo lendo isto e achar que eu estou falando besteira, pode me corrigir. Estou apenas repassando a informação que peguei diretamente num poster no museu de Londres). Até 2009 o candidato mais provável para elo perdido era o sujeitinho abaixo, Darwinius masillae, um macaquinho com alguns centímetros de altura e cauda longa, que parece ter vivido há algumas dezenas de milhões de anos. Também está no mesmo museu.

 
 p. s.  Uma atualização das informações finais deste post, incluindo recentes descobertas publicadas na Nature, pode ser encontrada no post Evolução II.

sábado, 18 de junho de 2011

Gênesis




Continuando o post passado, abaixo eu relaciono algumas outras interpretações existentes para Gênesis 1. Algumas delas eu considero inaceitáveis, outras não. Lembrando que a interpretação 1 é a “estritamente literal”, mostrada anteriormente.

Interpretação 2 - A Lenda

O céu, ou firmamento, é uma abóbada rígida onde as estrelas estão presas? Existe água acima deste firmamento? A água escorre por buraquinhos no firmamento quando chove? Assim já é demais, isto só pode ser uma lenda! Assim é que alguns teólogos liberais enxergam o relato Bíblico. Acham que os hebreus apenas copiaram lendas pagãs sobre a criação, o texto não tem nada de inspirado.

Interpretação 3 - Parábola

Semelhante à anterior, acha que o relato é apenas uma parábola para dar alguma lição espiritual (separação entre luz e trevas, ordem a partir do caos, Deus criou tudo com um propósito, etc.). Defensores desta posição creem que o texto é inspirado, mas não tem nada de científico e não serve para saber como Deus criou o mundo. Alguns comentaristas defendem que Deus usou as crenças da época apenas para ensinar os hebreus que Ele criou todas as coisas. Assim, se as pessoas acreditavam que o céu era rígido e tinha um reservatório de água além das estrelas, Deus não as corrigiu, apenas disse: “fui eu que fiz isto”. O problema desta interpretação é que parece transformar Deus em cúmplice de uma mentira.

Interpretação 4 - Intervalo

Na teoria do intervalo (“gap theory”), existe um período de tempo indeterminado entre Gn 1:1 e Gn 1:2. Há bilhões de anos atrás, Deus teria criado os céus e a terra, com dinossauros e outras criaturas. Mas um evento catastrófico destruiu o planeta e a terra ficou sem forma e vazia. Deus, então, iniciou o processo de re-criação em seis dias a partir do verso 3. Isto possibilita que o texto seja interpretado literalmente e ainda assim permite que a Terra tenha bilhões de anos, explicando o registro fóssil como dizem a maioria dos cientistas. Em princípio, parece-me forçado demais concluir que existia uma terra em Gn 1:1 e outra em Gn 1:2 só porque “a terra era sem forma e vazia” talvez pudesse ser traduzido como “a terra tornou-se sem forma e vazia”. Esta teoria foi muito popular no século XX, mas parece que perdeu fôlego com o passar dos anos.

Interpretação 5 - Dias "FIAT"

"Fiat" é uma palavra em latim que significa “haja”. Assim, “Fiat lux” significa “haja luz”. Segundo a teoria dos dias fiat, Gênesis 1 é inspirado por Deus, mas não descreve a duração nem a ordem dos eventos da criação no referencial da terra, mas sim do céu. Explicando melhor, o texto descreve o que se passa no céu, onde Deus declara “haja...” durante seis dias celestiais (seja lá o que isto signifique). Assim, no primeiro dia, Deus disse “Fiat lux” e ficou decretado que haveria luz no universo. As coisas não são formadas aqui na terra necessariamente no mesmo instante nem na mesma ordem em que foram declaradas por Deus, pois o texto refere-se ao tempo celestial e não terrestre. Assim, quando Ele diz no quarto dia “Haja luminares na expansão dos céus”, não quer dizer que as estrelas foram formadas depois da terra. Apenas sua criação foi ordenada por Deus no quarto dia celestial. Quando isto se cumpriu, não é importante. Não sei se expliquei de maneira clara, mas acho que vocês pegaram a ideia.

Interpretação 6 – Dias relativos

Esta teoria foi apresentada pelo Dr. Russell Humphreys no livro “Starlight and time” (“A luz das estrelas e o tempo”) e concentra-se em responder à pergunta: “se o universo tem apenas alguns poucos milhares de anos, como conseguimos enxergar a luz de estrelas que se encontram a bilhões de anos luz da terra?” O problema é que se a velocidade da luz é constante, aproximadamente 300.000 km/s, deveria levar bilhões de anos para a luz destas estrelas chegar até nós. Como conseguimos enxergá-las, isto quer dizer que o universo tem bilhões de anos. Uma maneira de tentar resolver este problema, mantendo a fé em um universo jovem, é dizer que a velocidade da luz era mais rápida no início e depois caiu bruscamente. Mas, a velocidade constante da luz é uma “vaca sagrada” da ciência e não pode ser tocada. Outra tentativa, defendida pelo Dr. Humphreys, baseia-se na teoria da relatividade de Einstein, que diz que o tempo é relativo e passa mais rápida ou mais lentamente de acordo com o referencial onde é medido. Na teoria de Humphreys, a Terra tem 6 mil anos e a fronteira final do universo tem bilhões de anos. Se considerarmos o universo como um espaço tridimensional com a Terra aproximadamente no centro, durante a criação um relógio localizado na terra teria marcado seis dias, mas um relógio localizado na fronteira do universo teria marcado os bilhões de anos necessários para a luz das estrelas mais distantes chegar até a terra no dia 4 da criação. Esta teoria é pouco popular pois, obviamente, poucos são capazes de entendê-la e só físicos experientes podem avaliar se o Dr. Humphreys cometeu erros ou não em seus cálculos. De qualquer jeito, a teoria é fortemente criticada até mesmo por físicos criacionistas.

Interpretação 7 - Dias longos

Existem várias versões que consideram que a palavra “dia” no capítulo 1 de Gênesis refere-se a um longo período de tempo, que pode ter até milhões ou bilhões de anos. Alguns aceitam a teoria da evolução das espécies de Darwin e outros a rejeitam, mas este é assunto para outro post. Aqui, vou resumir a posição proposta por Gerald Schroeder, físico judeu que baseou-se nos escritos dos antigos rabinos e na teoria do Big Bang para interpretar o Gênesis, que ele acredita ser inspirado por Deus. Apesar de ele não ser Cristão e defender alguns pontos de vista estranhos a respeito da origem das espécies, é interessante considerar uma posição defendida por um adepto do Judaismo. Vale observar que existem diferentes linhas teológicas dentro do Judaismo, sendo que a maioria dos judeus ortodoxos defende a interpretação estritamente literal, comentada no post anterior.

Schroeder baseia-se principalmente nos escritos de dois rabinos famosos do século XIII, Namânides e Maimônides, que escreveram muito antes de qualquer teoria semelhante ao big bang ser apresentada pelos cientistas. Namânides diz, em seu comentário sobre a Torá:

“No ínfimo instante após a criação, toda a matéria do Universo estava concentrada em um lugar mínimo, não maior do que um grão de mostarda. A matéria era tão tênue, tão intangível, que não chegava a ser verdadeiramente substancial. Possuía, no entanto, o potencial de adquirir substância e forma, e de tornar-se matéria tangível. A partir da sua concentração inicial num ponto diminuto, essa substância intangível expandiu-se e, com ela, expandiu-se também o Universo. Prosseguindo a expansão, ocorreu uma mudança substancial, e a substância inicialmente incorpórea assumiu os aspectos palpáveis da matéria tal como a conhecemos. Deste ato inicial da criação, desta pseudo-substância tênue e etérea, tudo o que existiu, existe e existirá foi, é e será formado.”

Namânides também diz que somente no dia 1 a matéria foi criada a partir do nada. Namânides diz que antes da criação, o tempo não existia. Maimônides, em seu “Guia para os perplexos”, completa, dizendo que antes da criação, o espaço não existia.

Uma sequência de eventos da criação usando a idéia de dias longos fica mais ou menos assim:

Gn 1:1 - o universo é criado, a partir do “grão de mostarda”.

Gn 1:2 - ser “sem forma e vazia” significa que a terra ainda não havia sido formada realmente, havia apenas a substância a partir da qual ela seria moldada, ou seja, o “caldo primordial” sem forma, constituído de partículas sub-atômicas e energia. As “trevas sobre o abismo” significam que os fótons de luz estavam em constante colisão com os elétrons livres no caldo e esta mistura entre luz e matéria fez com que o universo primordial fosse escuro. Schroeder acha que o texto se refere às condições de um super buraco negro logo após a criação. Por falta de um termo melhor em hebraico, a substância primordial da qual toda a matéria seria formada é chamada de “águas” no verso 2. O Espírito, ou vento, de Deus é o que teria causado a expansão.

Gn 1:3-4 - “Haja luz”, ocorre quando o universo se esfria, os átomos são formados e a luz se separa da matéria, havendo separação entre luz e trevas.

Gn 1:5 - “E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.” Note que a palavra “dia” refere-se tanto à luz quanto ao período de tempo “tarde e manhã”. Citando Namânides, Schroeder diz que a palavra hebraica para “tarde” é “ereb”, cuja raiz também pode significar “confuso, misturado, desordenado”. A palavra para “manhã” é “boker”, cuja raiz pode ser entendida como “discernível, ordenado”. Assim, “tarde e manhã” pode significar que a cada dia da criação ocorre uma mudança de “caos” para “ordem”. Esta ideia é contestada pelos críticos desta teoria, mas como não entendo nada de hebraico, não posso opinar. Segundo o dicionário Strong, “ereb” pode significar “tarde, misturado, etc.” e sua raiz é “arab”, que significa “anoitecer, escurecer”. “Boker” significa “manhã” e a raiz da palavra é “bakar”, que significa “buscar, procurar”.

Gn 1:6-8 - Deus cria a expansão/firmamento, ou céus, e separa águas acima e abaixo da expansão. Agora, o termo hebraico para “água” assume seu significado atual. A palavra “expansão” ou “firmamento” em Gênesis significa tanto a atmosfera, onde existe separação entre águas, quanto o espaço sideral, onde estão as estrelas. Pode ser que os antigos imaginassem a abóbada celeste como algo rígido onde as estrelas estavam presas. Isto não quer dizer que é isto que a Bíblia está ensinando, apenas foi empregado um termo conhecido na época para se referir aos céus.

Gn 1:9-13 - No terceiro dia, Deus cria os mares, os continentes e as plantas. As plantas necessitam de luz para viver, mas o sol só aparece no quarto dia. Então, como as plantas podem sobreviver sem sol se o terceiro dia durar milhares de anos ou mais? A resposta proposta é que a esta altura o sol e as estrelas já existiam. Contudo, até aqui a atmosfera da terra estava envolta por densas nuvens de vapor que impediam que o sol fosse visível a partir da terra:

“Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escuridão por faixas,” Jó 38:4,9

Com o aparecimento da vida vegetal, a fotossíntese removeu os compostos de carbono e nitrogênio da atmosfera, permitindo que o sol, a lua e as estrelas se tornassem visíveis no dia 4.

Gn 2:14-19 - Os luminares se tornam visíveis e Deus atribui a eles o papel de servirem para governar o dia e a noite e marcar as estações. Esta parte pode ser contestada, pois o texto diz que Deus fez os luminares e os pôs na expansão, não que Ele os tornou visíveis, removendo uma névoa.

Gn 2:20-23 - Com o sol visível, a Terra está pronta para receber a vida animal. A vida começa na água, espalhando-se, em seguida, pelos ares. Note que esta sequência é contrária à teoria da evolução, que afirma que a vida se espalhou da água para a terra e depois para os ares.

Gn 2:24-31 - Deus cria os animais terrestres e o homem.

Após a criação do homem, Schroeder considera que se passaram aproximadamente 6000 anos, conforme a cronologia Bíblica. Algumas variações desta teoria encaram que o planeta Terra já estava formado no verso 1 e os próximos versos descrevem a preparação da terra para receber a vida, basicamente seguindo a sequência acima.

Uma das dificuldades da teoria dos dias longos é que é necessário que haja mortes no mundo antes mesmo da formação e queda do homem, sendo que a Bíblia diz que a morte entrou no mundo pelo pecado (Rm 5:12). A resposta é que a morte HUMANA entrou no mundo pelo pecado, “a morte passou a todos os HOMENS por isso que todos pecaram.”, mas nada impede que já houvesse morte de animais antes. Com certeza já havia morte de plantas e frutas antes da queda, por que não de animais? De qualquer jeito, o Éden seria um lugar especial na terra; como a maldição pós-queda afetou o solo e a vida animal fora dele é assunto de especulação.

Conclusão

Todas estas teorias têm suas dificuldades e o modelo científico apresentado nas universidades também tem. Questões ainda sem resposta permanecem e deveríamos ser cautelosos antes de tirar conclusões definitivas sobre estes assuntos. A Bíblia é clara sobre a vontade de Deus para o homem, mas não tem intenção de ensinar ciência e o ensino sobre as origens foi dado em uma linguagem simples e com poucos detalhes, de forma que pudesse ser compreendida por qualquer pessoa em qualquer época. Simplesmente temos que admitir que não sabemos com certeza como foi que Deus criou o universo. Eu respeito quem tenta encontrar uma resposta que reconcilie a ciência e a fé, mas quando a ciência colide com um ensino claro do texto, eu fico com a fé. Prefiro ficar com o texto como está, apenas entendo que podemos ser flexíveis quanto à duração dos dias. Pode ser que Deus tenha usado o termo "dia" para simplificar a narrativa, afinal de contas, se eu não consigo assimilar hoje o que são bilhões de anos, como Moisés poderia?

p. s. Atualização deste post em: Gênesis 1 e 2 de novo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Big Bang



Conforme prometido, vou começar a discutir algumas possíveis interpretações para os primeiros dois capítulos de Gênesis e como eles devem ser aceitos, apesar dos ataques da ciência secular. Minha intenção aqui não é apresentar bases científicas para o texto, apesar de que faremos um pouco disto. No final das contas, acreditamos na Bíblia porque o Espírito nos convence de que ela é a verdade, como comentei no post "Por que sou um Cristão?". Também não tenho a pretenção de apresentar a interpretação definitiva do texto, pois foi escrito em uma linguagem simples e com poucos detalhes. Vou fazer apenas um apanhado geral das teorias e deixar o veredito com o leitor. Tenho ouvido de pessoas que abandonaram a fé cristã que professavam por causa de dúvidas quanto à coerência científica da Bíblia, mas também conheço pessoalmente outros (biólogos e astrônomos) que eram ateus e se tornaram Cristãos após estudarem o livro de Gênesis. No final das contas, a pessoa crê se tiver fé e endurece o coração se não tiver. E sem fé é impossível agradar a Deus.

Primeiro, vou resumir o modelo mais aceito hoje pelos cosmólogos, conforme apresentado por Malcolm Longair, ex-professor de Física da Universidade de Cambridge. Vou gastar um pouco de tempo com esta descrição porque certos detalhes serão importantes para entender algumas das interpretações de Gênesis 1 a serem apresentadas no próximo artigo.

Big Bang, modelo padrão

Até onde se pode observar, o universo encontra-se em expansão, com as galáxias afastando-se umas das outras, sendo que a velocidade com que uma galáxia se afasta da nossa é proporcional à sua distância (Lei de Hubble). Segundo esta teoria, se pudéssemos viajar ao passado, veríamos o universo se comprimindo cada vez mais, com o espaço se reduzindo até chegar a um ponto, antes do qual o tempo e o espaço simplesmente não existem. Este ponto, chamado de singularidade, é onde o tempo e o espaço começam. Alguns cientistas têm um problema com a idéia de que haja um começo da criação. Preferem imaginar que o universo sempre existiu e que antes do instante inicial havia outros universos se expandindo e comprimindo infinitamente. Esta idéia de um universo sem início é conveniente para aqueles que não acreditam em Deus, pois se houve um começo de tudo, é necessário alguém para iniciar o processo. Mas a idéia de um universo sem começo não é a posição mais aceita pelos cientistas. No modelo padrão do big bang, admite-se que houve um início, mas não se sabe o que havia no instante zero, apenas tentam entender o que aconteceu logo após este instante e daí em diante.

No início, há aproximadamente 13,7 bilhões de anos, a maior parte da massa do universo se encontrava na forma de radiação. A altíssima temperatura da radiação impedia que as partículas elementares se associassem para criar os núcleos dos átomos que compõem a matéria comum. Assim, radiação e matéria estavam fortemente ligadas em uma "sopa primordial". Quando o universo se expandiu, a temperatura começou a cair. A queda de temperatura permitiu a associação de partículas elementares para a formação de outras partículas. Algumas centenas de milhares de anos depois, a temperatura caiu para 4000K e prótons e elétrons puderam se ligar para formar os primeiros átomos de hidrogênio e hélio. Nesta época, a matéria se separou da luz (ou seja, da radiação).

Algumas centenas de milhões (ou poucos bilhões) de anos se passaram até que a atração gravitacional entre partículas em nuvens moleculares foi capaz de gerar as primeiras estrelas. O interior das estrelas funciona como "fornos" para a produção de elementos pesados como carbono e ferro através de fusões nucleares. Quando o combustível necessário às reações nucleares se esgota, o interior da estrela sofre um colapso catastrófico devido à gravidade, e o processo pode gerar uma imensa explosão que expele os elementos pesados no espaço (esta é a chamada "poeira de estrelas"). No lugar da estrela morta, pode surgir um outro tipo de estrela ou um buraco negro. A Terra teria se formado há 4 bilhões de anos, contendo elementos pesados provenientes da poeira de estrelas.

A teoria do Big Bang tem sofrido muitas modificações ao longo dos anos e é possível que não resista ao teste do tempo durante o século XXI. A Ciência é assim mesmo, novas descobertas fazem idéias antigas ficarem obsoletas com frequência. Os homens são rápidos em anunciar que descobriram as respostas para as origens do universo, mas, com o passar do tempo, muitas vezes acabam tendo que se retratar. Somente a Bíblia pode nos fornecer a verdade absoluta sobre a criação. Por isso mesmo, não é prudente "amarrar" a interpretação do texto Bíblico a alguma teoria científica que não tenha sido absolutamente comprovada, pois assim que a teoria cair em descrédito, a interpretação também cairá. No entanto, as descobertas científicas podem lançar luz sobre o entendimento de alguns aspectos do texto Bíblico. Assim, vamos observar o que diz Gênesis 1 e quais são algumas possíveis interpretações.

Interpretação 1: Estritamente literal

No princípio, Deus criou os céus e a terra. Os céus não possuíam estrelas e a terra era sem forma e vazia. Após isto, Deus criou a luz e o firmamento, modelou a terra, criou os animais, colocou as estrelas e a lua no firmamento e criou o homem. Tudo isto em 6 dias de 24 horas, há aproximadamente seis mil anos.

Uma visão estritamente literal de Gênesis 1 sugere que esta é a interpretação correta. Aliás, para os que levam a Bíblia a sério, pode parecer a única interpretação aceitável. Eu mesmo já considerei que qualquer outra interpretação seria heresia e achava que as pessoas que defendiam outras posições estavam comprometendo a inspiração e a inerrância das Escrituras. No entanto, hoje eu creio que algumas coisas no texto abrem a possibilidade para diferentes interpretações. Por exemplo, se os céus foram criados no princípio mas não tinham astros, o que havia neles? Se o sol só foi criado no quarto dia, o que era a luz que foi criada no primeiro dia? Esta luz parece ser responsável pela determinação de tarde e manhã nos primeiros dias, mas no quarto dia Deus diz que o sol governa o dia e a lua governa a noite. O que aconteceu com a luz do dia 1? No dia 6 Deus criou o homem, "homem e mulher os criou". Portanto, Deus criou Adão e Eva no sexto dia. Mas, segundo Gênesis capítulo 2, algumas coisas aconteceram neste sexto dia entre a criação de Adão e a criação de Eva:

- Deus plantou um jardim no Éden (Gn 2:8)

- Deus fez as árvores do jardim brotarem da terra (Gn 2:9). Note que nos versos 5 e 6 de Gn 2 as árvores não tinham nascido ainda, pois não havia chuva nem homem para lavrar a terra e uma neblina regava a terra. Isto indica que as árvores brotaram e cresceram por processos naturais, o que leva tempo.

- Deus tomou o homem e o colocou no jardim (Gn 2:15).

- Deus trouxe todas as aves e todo animal do campo a Adão e este deu nome a eles todos (Gn 2:19-20).

- Deus colocou Adão para dormir, tomou uma costela dele e formou uma mulher (Gn 2:21-22).

Parece que foi um longo dia para Adão. Além destes pontos, em Gn 2:2-3, Deus descansa no sétimo dia. No entanto, diferentemente dos outros dias, aqui não se diz que houve tarde e manhã. Até quando Deus descansou? Este sábado já terminou? Se, porventura, o último dia teve mais de 24 horas, porque os demais não poderiam ter? Afinal de contas, Gn 2:4 fala do "DIA em que o Senhor Deus fez a terra e os céus" referindo-se a todo o período da criação, não apenas a um dos seis dias.

Estas dúvidas não são necessariamente irrespondíveis e não invalidam esta interpretação. Mas eu acho que é lícito considerar alternativas. Faremos isto no próximo post, se Deus quiser.