sábado, 18 de junho de 2011

Gênesis




Continuando o post passado, abaixo eu relaciono algumas outras interpretações existentes para Gênesis 1. Algumas delas eu considero inaceitáveis, outras não. Lembrando que a interpretação 1 é a “estritamente literal”, mostrada anteriormente.

Interpretação 2 - A Lenda

O céu, ou firmamento, é uma abóbada rígida onde as estrelas estão presas? Existe água acima deste firmamento? A água escorre por buraquinhos no firmamento quando chove? Assim já é demais, isto só pode ser uma lenda! Assim é que alguns teólogos liberais enxergam o relato Bíblico. Acham que os hebreus apenas copiaram lendas pagãs sobre a criação, o texto não tem nada de inspirado.

Interpretação 3 - Parábola

Semelhante à anterior, acha que o relato é apenas uma parábola para dar alguma lição espiritual (separação entre luz e trevas, ordem a partir do caos, Deus criou tudo com um propósito, etc.). Defensores desta posição creem que o texto é inspirado, mas não tem nada de científico e não serve para saber como Deus criou o mundo. Alguns comentaristas defendem que Deus usou as crenças da época apenas para ensinar os hebreus que Ele criou todas as coisas. Assim, se as pessoas acreditavam que o céu era rígido e tinha um reservatório de água além das estrelas, Deus não as corrigiu, apenas disse: “fui eu que fiz isto”. O problema desta interpretação é que parece transformar Deus em cúmplice de uma mentira.

Interpretação 4 - Intervalo

Na teoria do intervalo (“gap theory”), existe um período de tempo indeterminado entre Gn 1:1 e Gn 1:2. Há bilhões de anos atrás, Deus teria criado os céus e a terra, com dinossauros e outras criaturas. Mas um evento catastrófico destruiu o planeta e a terra ficou sem forma e vazia. Deus, então, iniciou o processo de re-criação em seis dias a partir do verso 3. Isto possibilita que o texto seja interpretado literalmente e ainda assim permite que a Terra tenha bilhões de anos, explicando o registro fóssil como dizem a maioria dos cientistas. Em princípio, parece-me forçado demais concluir que existia uma terra em Gn 1:1 e outra em Gn 1:2 só porque “a terra era sem forma e vazia” talvez pudesse ser traduzido como “a terra tornou-se sem forma e vazia”. Esta teoria foi muito popular no século XX, mas parece que perdeu fôlego com o passar dos anos.

Interpretação 5 - Dias "FIAT"

"Fiat" é uma palavra em latim que significa “haja”. Assim, “Fiat lux” significa “haja luz”. Segundo a teoria dos dias fiat, Gênesis 1 é inspirado por Deus, mas não descreve a duração nem a ordem dos eventos da criação no referencial da terra, mas sim do céu. Explicando melhor, o texto descreve o que se passa no céu, onde Deus declara “haja...” durante seis dias celestiais (seja lá o que isto signifique). Assim, no primeiro dia, Deus disse “Fiat lux” e ficou decretado que haveria luz no universo. As coisas não são formadas aqui na terra necessariamente no mesmo instante nem na mesma ordem em que foram declaradas por Deus, pois o texto refere-se ao tempo celestial e não terrestre. Assim, quando Ele diz no quarto dia “Haja luminares na expansão dos céus”, não quer dizer que as estrelas foram formadas depois da terra. Apenas sua criação foi ordenada por Deus no quarto dia celestial. Quando isto se cumpriu, não é importante. Não sei se expliquei de maneira clara, mas acho que vocês pegaram a ideia.

Interpretação 6 – Dias relativos

Esta teoria foi apresentada pelo Dr. Russell Humphreys no livro “Starlight and time” (“A luz das estrelas e o tempo”) e concentra-se em responder à pergunta: “se o universo tem apenas alguns poucos milhares de anos, como conseguimos enxergar a luz de estrelas que se encontram a bilhões de anos luz da terra?” O problema é que se a velocidade da luz é constante, aproximadamente 300.000 km/s, deveria levar bilhões de anos para a luz destas estrelas chegar até nós. Como conseguimos enxergá-las, isto quer dizer que o universo tem bilhões de anos. Uma maneira de tentar resolver este problema, mantendo a fé em um universo jovem, é dizer que a velocidade da luz era mais rápida no início e depois caiu bruscamente. Mas, a velocidade constante da luz é uma “vaca sagrada” da ciência e não pode ser tocada. Outra tentativa, defendida pelo Dr. Humphreys, baseia-se na teoria da relatividade de Einstein, que diz que o tempo é relativo e passa mais rápida ou mais lentamente de acordo com o referencial onde é medido. Na teoria de Humphreys, a Terra tem 6 mil anos e a fronteira final do universo tem bilhões de anos. Se considerarmos o universo como um espaço tridimensional com a Terra aproximadamente no centro, durante a criação um relógio localizado na terra teria marcado seis dias, mas um relógio localizado na fronteira do universo teria marcado os bilhões de anos necessários para a luz das estrelas mais distantes chegar até a terra no dia 4 da criação. Esta teoria é pouco popular pois, obviamente, poucos são capazes de entendê-la e só físicos experientes podem avaliar se o Dr. Humphreys cometeu erros ou não em seus cálculos. De qualquer jeito, a teoria é fortemente criticada até mesmo por físicos criacionistas.

Interpretação 7 - Dias longos

Existem várias versões que consideram que a palavra “dia” no capítulo 1 de Gênesis refere-se a um longo período de tempo, que pode ter até milhões ou bilhões de anos. Alguns aceitam a teoria da evolução das espécies de Darwin e outros a rejeitam, mas este é assunto para outro post. Aqui, vou resumir a posição proposta por Gerald Schroeder, físico judeu que baseou-se nos escritos dos antigos rabinos e na teoria do Big Bang para interpretar o Gênesis, que ele acredita ser inspirado por Deus. Apesar de ele não ser Cristão e defender alguns pontos de vista estranhos a respeito da origem das espécies, é interessante considerar uma posição defendida por um adepto do Judaismo. Vale observar que existem diferentes linhas teológicas dentro do Judaismo, sendo que a maioria dos judeus ortodoxos defende a interpretação estritamente literal, comentada no post anterior.

Schroeder baseia-se principalmente nos escritos de dois rabinos famosos do século XIII, Namânides e Maimônides, que escreveram muito antes de qualquer teoria semelhante ao big bang ser apresentada pelos cientistas. Namânides diz, em seu comentário sobre a Torá:

“No ínfimo instante após a criação, toda a matéria do Universo estava concentrada em um lugar mínimo, não maior do que um grão de mostarda. A matéria era tão tênue, tão intangível, que não chegava a ser verdadeiramente substancial. Possuía, no entanto, o potencial de adquirir substância e forma, e de tornar-se matéria tangível. A partir da sua concentração inicial num ponto diminuto, essa substância intangível expandiu-se e, com ela, expandiu-se também o Universo. Prosseguindo a expansão, ocorreu uma mudança substancial, e a substância inicialmente incorpórea assumiu os aspectos palpáveis da matéria tal como a conhecemos. Deste ato inicial da criação, desta pseudo-substância tênue e etérea, tudo o que existiu, existe e existirá foi, é e será formado.”

Namânides também diz que somente no dia 1 a matéria foi criada a partir do nada. Namânides diz que antes da criação, o tempo não existia. Maimônides, em seu “Guia para os perplexos”, completa, dizendo que antes da criação, o espaço não existia.

Uma sequência de eventos da criação usando a idéia de dias longos fica mais ou menos assim:

Gn 1:1 - o universo é criado, a partir do “grão de mostarda”.

Gn 1:2 - ser “sem forma e vazia” significa que a terra ainda não havia sido formada realmente, havia apenas a substância a partir da qual ela seria moldada, ou seja, o “caldo primordial” sem forma, constituído de partículas sub-atômicas e energia. As “trevas sobre o abismo” significam que os fótons de luz estavam em constante colisão com os elétrons livres no caldo e esta mistura entre luz e matéria fez com que o universo primordial fosse escuro. Schroeder acha que o texto se refere às condições de um super buraco negro logo após a criação. Por falta de um termo melhor em hebraico, a substância primordial da qual toda a matéria seria formada é chamada de “águas” no verso 2. O Espírito, ou vento, de Deus é o que teria causado a expansão.

Gn 1:3-4 - “Haja luz”, ocorre quando o universo se esfria, os átomos são formados e a luz se separa da matéria, havendo separação entre luz e trevas.

Gn 1:5 - “E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.” Note que a palavra “dia” refere-se tanto à luz quanto ao período de tempo “tarde e manhã”. Citando Namânides, Schroeder diz que a palavra hebraica para “tarde” é “ereb”, cuja raiz também pode significar “confuso, misturado, desordenado”. A palavra para “manhã” é “boker”, cuja raiz pode ser entendida como “discernível, ordenado”. Assim, “tarde e manhã” pode significar que a cada dia da criação ocorre uma mudança de “caos” para “ordem”. Esta ideia é contestada pelos críticos desta teoria, mas como não entendo nada de hebraico, não posso opinar. Segundo o dicionário Strong, “ereb” pode significar “tarde, misturado, etc.” e sua raiz é “arab”, que significa “anoitecer, escurecer”. “Boker” significa “manhã” e a raiz da palavra é “bakar”, que significa “buscar, procurar”.

Gn 1:6-8 - Deus cria a expansão/firmamento, ou céus, e separa águas acima e abaixo da expansão. Agora, o termo hebraico para “água” assume seu significado atual. A palavra “expansão” ou “firmamento” em Gênesis significa tanto a atmosfera, onde existe separação entre águas, quanto o espaço sideral, onde estão as estrelas. Pode ser que os antigos imaginassem a abóbada celeste como algo rígido onde as estrelas estavam presas. Isto não quer dizer que é isto que a Bíblia está ensinando, apenas foi empregado um termo conhecido na época para se referir aos céus.

Gn 1:9-13 - No terceiro dia, Deus cria os mares, os continentes e as plantas. As plantas necessitam de luz para viver, mas o sol só aparece no quarto dia. Então, como as plantas podem sobreviver sem sol se o terceiro dia durar milhares de anos ou mais? A resposta proposta é que a esta altura o sol e as estrelas já existiam. Contudo, até aqui a atmosfera da terra estava envolta por densas nuvens de vapor que impediam que o sol fosse visível a partir da terra:

“Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escuridão por faixas,” Jó 38:4,9

Com o aparecimento da vida vegetal, a fotossíntese removeu os compostos de carbono e nitrogênio da atmosfera, permitindo que o sol, a lua e as estrelas se tornassem visíveis no dia 4.

Gn 2:14-19 - Os luminares se tornam visíveis e Deus atribui a eles o papel de servirem para governar o dia e a noite e marcar as estações. Esta parte pode ser contestada, pois o texto diz que Deus fez os luminares e os pôs na expansão, não que Ele os tornou visíveis, removendo uma névoa.

Gn 2:20-23 - Com o sol visível, a Terra está pronta para receber a vida animal. A vida começa na água, espalhando-se, em seguida, pelos ares. Note que esta sequência é contrária à teoria da evolução, que afirma que a vida se espalhou da água para a terra e depois para os ares.

Gn 2:24-31 - Deus cria os animais terrestres e o homem.

Após a criação do homem, Schroeder considera que se passaram aproximadamente 6000 anos, conforme a cronologia Bíblica. Algumas variações desta teoria encaram que o planeta Terra já estava formado no verso 1 e os próximos versos descrevem a preparação da terra para receber a vida, basicamente seguindo a sequência acima.

Uma das dificuldades da teoria dos dias longos é que é necessário que haja mortes no mundo antes mesmo da formação e queda do homem, sendo que a Bíblia diz que a morte entrou no mundo pelo pecado (Rm 5:12). A resposta é que a morte HUMANA entrou no mundo pelo pecado, “a morte passou a todos os HOMENS por isso que todos pecaram.”, mas nada impede que já houvesse morte de animais antes. Com certeza já havia morte de plantas e frutas antes da queda, por que não de animais? De qualquer jeito, o Éden seria um lugar especial na terra; como a maldição pós-queda afetou o solo e a vida animal fora dele é assunto de especulação.

Conclusão

Todas estas teorias têm suas dificuldades e o modelo científico apresentado nas universidades também tem. Questões ainda sem resposta permanecem e deveríamos ser cautelosos antes de tirar conclusões definitivas sobre estes assuntos. A Bíblia é clara sobre a vontade de Deus para o homem, mas não tem intenção de ensinar ciência e o ensino sobre as origens foi dado em uma linguagem simples e com poucos detalhes, de forma que pudesse ser compreendida por qualquer pessoa em qualquer época. Simplesmente temos que admitir que não sabemos com certeza como foi que Deus criou o universo. Eu respeito quem tenta encontrar uma resposta que reconcilie a ciência e a fé, mas quando a ciência colide com um ensino claro do texto, eu fico com a fé. Prefiro ficar com o texto como está, apenas entendo que podemos ser flexíveis quanto à duração dos dias. Pode ser que Deus tenha usado o termo "dia" para simplificar a narrativa, afinal de contas, se eu não consigo assimilar hoje o que são bilhões de anos, como Moisés poderia?

p. s. Atualização deste post em: Gênesis 1 e 2 de novo.

7 comentários:

  1. Bom post, didático e conciso, como de costume. Achei incrível a descrição que Namânides faz. Como será que ele extraiu aquilo tudo dos poucos versículos sobre o dia 1? Imaginação fértil? Tradições antigas? Posso imaginar um especial sobre o Big Bang no Discovery Chanel com essa exata narração enquanto efeitos especiais ilustram a passagem da "singularidade" para o Universo. Curioso...

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  2. Deixa eu contar um segredo pra vcs sobre Namânides... naquela época ele fumava... NARGUILE!!! hehehehhe Ai ta explicado!!! heheheheh
    Show de bola o post!!!

    Shalom!

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  3. Muito bom, Erico. A parte que eu mais gostei foi a conclusão, porque esse princípio de ficar com a fé quando a ciência colide com o ensinamento bíblico é indispensável. Afinal, se tudo na bíblia tiver que necessariamente ser provado e explicado pela ciência não dá pra dizer que cremos pela fé...
    Que Deus continue te ungindo e inspirando!

    22 de junho de 2011 03:01

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  4. Excelente post Erico.
    Um abraco

    Nilson

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  5. Mais uma postagem muito interessante! Não conhecia todas essas explicações possíveis (algumas, quase impossíveis) para interpretar Gênesis 1. Não sou cientista e não sei explicar como é possível ver a luz de estrelas que estariam a milhares de anos-luz da Terra (caso a velocidade dela sempre seja a mesma). Mas, minha fé ainda me permite crer na interpretação literal de Gênesis 1 e 2, e, a meu juízo, parece que a própria Bíblia ensina dessa forma. Ex 20. 8-11, por exemplo, me leva a entender que os sete dias de Gênesis 1 foram dias de 24 horas. Em Mt 19.4-5 o Senhor Jesus também parece interpretar Gênesis 1 literalmente, ao dizer que Deus fez o homem e a mulher “no princípio”, isto é, não poderia ter sido depois de longas eras. Obrigado, Érico, por compartilhar teus estudos e reflexões, que, embora concisos, são bem profundos. Grande abraço!

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